terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Valores objetivos



A perspetiva objetivista (também designada realismo moral) defende que certas coisas são objetivamente um bem ou objetivamente um mal, independentemente do que possamos sentir ou pensar. Martin Luther King, por exemplo, defendia que o racismo está objetivamente errado. Que o racismo esteja errado era para ele um facto. Qualquer pessoa e cultura que aprovasse o racismo estariam erradas. Ao dizer isto, King não estava a absolutizar as normas da nossa sociedade; discordava, pelo contrário, das normas amplamente aceites. Fazia apelo a uma verdade mais elevada acerca do bem e do mal, uma verdade que não estava dependente do modo de pensar ou sentir das pessoas neste ou naquele momento. Fazia apelo a valores objetivos.
Ana rejeita a crença em valores objetivos e chama-lhe "o mito da objetividade". Nesta perspetiva, as coisas são um bem ou um mal apenas relativamente a esta ou àquela cultura. Não são objetivamente boas ou más, como King pensava. Mas serão os valores objetivos realmente um "mito"? Para responder a isto convém examinar o raciocínio de Ana.
Ana tinha três argumentos contra a objetividade dos valores. Não existem verdades morais objetivas porque:
·                     A moral é um produto da cultura;
·                     As sociedades discordam amplamente acerca da moralidade;
·                     Não existe uma maneira clara de resolver diferenças morais.
De facto, qualquer destes argumentos cede com facilidade se o examinarmos cuidadosamente.
1.                   "Dado que a moral é um produto da cultura, não podem existir verdades morais objetivas". O problema deste raciocínio é que um produto da cultura pode expressar uma verdade objetiva. Qualquer livro é um produto cultural; no entanto, muitos livros exprimem verdades objetivas. Da mesma forma, um código moral pode ser um produto cultural e expressar verdades objetivas acerca da maneira como as pessoas devem viver.
2.                   "Visto as diferentes culturas discordarem amplamente sobre a moral, não podem existir verdades morais objetivas." O simples facto de existir desacordo não mostra, no entanto, que não existe verdade neste domínio e que nenhum dos lados está certo ou errado. O extenso desacordo entre diferentes culturas acerca de antropologia, religião, e até em física, não impede a existência de verdades objetivas nestes domínios. Logo, o desacordo em questões morais não mostra que não exista verdade nestes assuntos. 


Podemos igualmente questionar-nos se as diferentes culturas divergem assim tão profundamente sobre a moral. Na maior parte das culturas existem normas muito semelhantes quanto a matar, roubar e mentir. E muitas das diferenças podem ser explicadas em resultado da aplicação dos mesmos valores básicos a diferentes situações. A Regra de Ouro "Trata os outros como queres ser tratado" é quase universalmente aceite em todo o mundo. E as diferentes culturas que constituem as Nações Unidas concordaram em larga medida a respeito dos direitos humanos mais elementares.


3.                   "Como não existe uma maneira clara de resolver diferenças morais, não é possível que existam verdades morais objetivas." Mas podem existir maneiras claras de resolver pelo menos um grande número de diferenças morais. Precisamos de uma forma de raciocinar em ética que faça apelo às pessoas inteligentes e com suficiente abertura de espírito de todas as culturas — isto faria pela ética o que se obteve em ciência com o método experimental. 


Ainda que não existisse uma maneira sólida de conhecer verdades morais, daí não se segue que tais verdades não existam. Existem verdades que não conhecemos inequivocamente. Terá chovido neste lugar 500 anos atrás? Há seguramente uma verdade acerca disto que nunca conheceremos. Apenas uma pequena percentagem de verdades são conhecidas. Logo, podem existir verdades morais objectivas mesmo que não possamos sabê-lo.


O ataque de Ana aos valores morais objetivos falhou. Mas isto não encerra o tema porque há mais argumentos. O debate sobre a objetividade dos valores é importante. Antes de terminar gostaria de clarificar alguns aspectos.
O ponto de vista objetivista afirma que algumas coisas são objetivamente um bem ou um mal, independentemente do que possamos pensar ou sentir; contudo, esta perspetiva está preparada para aceitar algum relativismo noutras áreas. Muitas regras sociais são claramente determinadas por padrões locais:
·                     Regra local: "É proibido virar à direita com a luz vermelha."
·                     Regra de etiqueta local: "Use o garfo apenas com a mão esquerda."
É necessário respeitar este género de regras locais; ao proceder de outra maneira podemos ferir as pessoas, quer porque chocamos contra os seus carros quer porque ferimos os seus sentimentos. Na concepção objectivista, a exigência de não magoar as outras pessoas é uma regra de um género diferente — uma regra moral — não determinada por costumes locais. Considera-se que as regras morais possuem mais autoridade que as leis governamentais ou as regras de etiqueta; são regras que qualquer sociedade deve respeitar se quiser sobreviver e prosperar. Se visitamos um lugar cujos padrões permitem magoar as pessoas por razões triviais, então esses padrões estão errados. O relativismo cultural disputa esta afirmação. A ideia é que os padrões locais são determinantes ainda que se trate de princípios morais básicos; assim, ferir outras pessoas por motivos triviais é um bem se esta atitude for socialmente aprovada.


Respeitar as diferenças culturais não nos transforma em relativistas culturais. Este é um falso estereótipo. O que caracteriza o relativismo cultural é a afirmação de que tudo o que é socialmente aprovado é um bem.

Harry Gensler Ethics: A contemporary introduction
 in http://criticanarede.com/fil_relatcultural.html

Apresente, justificadamente, a sua posição, relativamente às perspetivas apresentadas no texto.

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