terça-feira, 31 de julho de 2012

Sobre a verdade




Os Etíopes dizem que os seus deuses são negros de nariz achatado,
Enquanto que os Trácios afirmam que os seus têm olhos azuis e cabelo ruivo.
Porém, se os bois ou os cavalos ou leões tivessem mãos e pudessem desenhar
E fossem capazes de esculpir como os homens, então os cavalos poderiam desenhar os seus deuses
Como cavalos, e os bois como bois, e cada um esculpiria então
Corpos de deuses, cada qual à sua própria imagem.

E Xenófanes tira desta lição uma importante conclusão crítica; infere que o conhecimento humano é falível:

Os deuses não nos revelaram, desde o início,
Todas as coisas; mas no decorrer dos tempos,
Podemos aprender através da busca, e conhecer melhor as coisas…
Estas coisas são, imaginamos nós, a verdade.

Mas a verdade certa, nenhum homem a conhece
Nem a virá a conhecer; nem a dos deuses
Nem a de todas as coisas deque falo.
E mesmo se, por acaso, pudesse dar voz
À verdade final, ele próprio não a conheceria:
Porque tudo não passa de uma intrincada teia de suposições.


(…)
Uma das principais tarefas da razão humana é tornar o universo em que vivemos algo compreensível para nós. Tal tarefa é a ciência. Há duas componentes diferentes, mas igualmente importantes, neste empreendimento.
A primeira é a invenção poética, ou seja, o contador de histórias ou a formação de mitos: a invenção de histórias que explicam o mundo. (…)
Esta primeira componente, que talvez seja tão antiga como a linguagem humana, é de extrema importância. E parece universal: todas as tribos e todos os povos têm histórias explicativas deste tipo, muitas vezes, sob a forma de conto de fadas. Parece que a invenção de explicações e de histórias explicativas é uma das funções básicas que a linguagem humana deve servir.
A segunda componente da racionalidade é, comparativamente, mais recente. Parece especificamente grega e ter surgido após o aparecimento da escrita na Grécia. Surgiu ao que parece uma única vez: com Anaximandro, aluno de Tales e primeiro crítico da cosmologia. Tratou-se da invenção da crítica, da discussão crítica de vários mitos explicativos – com o objectivo de desenvolvê-los conscientemente.
O principal exemplo grego dos mitos explicativos numa escala elaborada é, sem dúvida, a Teogonia de Hesíodo. Trata-se de uma história bárbara e arrebatadora sobre a origem e os feitos bons e maus dos deuses gregos. À primeira vista não pensaríamos que a Teogonia pudesse dar sugestões que influenciassem o desenvolvimento de uma explicação científica do nosso mundo. Todavia, propus a conjectura histórica de que uma passagem da Teogonia de Hesíodo, prefigurada por outra na Ilíada de Homero, foi usada para esse fim por Anaximandro.
Passo então a explicar a minha conjectura (…)

                                                                                in O Mito do Contexto, Karl Popper




quinta-feira, 24 de maio de 2012

Jorge Varanda








Pequeno-almoço sobre cartolina

Primeira exposição póstuma de Jorge Varanda (Luanda, 1953 - Lisboa, 2008), artista com um percurso marginal que se dividiu entre a pintura, a ilustração, as artes gráficas, a produção de diaporamas, a intervenção em arquitetura e a realização de filmes e banda desenhada.

O título da mostra remete para uma folha de cartolina, onde o artista desenhou o contorno de alguns objetos e escreveu palavras como “local da bandeja”, “pão” e “controlo remoto”, que sugerem uma refeição matinal em frente a uma televisão.

É esse horizonte próximo da produção de uma série de cartolinas de formato regular (100x70cm) pintadas ao longo dos anos 80, que estarão expostas, e que constitui o mais relevante desenvolvimento na pintura de suporte bidimensional de Jorge Varanda.

O título Pequeno-almoço sobre cartolina refere-se a uma ideia de domesticidade necessária à compreensão do conjunto da obra deste autor. A estranheza do comportamento dos outros é um dos temas oferecidos pelas imagens e narrativas fabricadas a partir de um lugar de conforto que é a casa, cuja moldura é justamente a janela, objeto simbólico da separação entre interior e exterior. A adversidade da vivência da cidade acontece numa relação inversa à comodidade experimentada em casa. A casa abre-se à rua e para um mundo atravessado por pessoas anónimas, peões ou marionetas.


Para além das cartolinas, esta mesma atmosfera é transmitida por outras obras, sobretudo pelas madeiras recortadas e justapostas, pelas caixas que são interiores de pequenos teatros ou exteriores de prédios de grandes cidades, ou por biombos e outros dispositivos articulados.

O trabalho de Varanda reenvia para uma urbanidade fracassada e apodrecida da qual também participa e pela qual se encontra inequivocamente intoxicado. É a des-humanidade que lhe terá sido, afinal, servida a quente na bandeja do pequeno-almoço.
                                                                                     Centro de Arte Moderna

JOSEF ALBERS


Pintura sobre papel

Primeira exposição em Portugal de Josef Albers (1888-1976), artista norte-americano nascido na Alemanha, que marcou a arte e a teoria da arte do século XX com a célebre série Homenagens ao Quadrado (Homages to the Square), que pintou entre 1950 e 1976, e com a publicação, em 1963, do ensaio The Interaction of Color, um estudo inovador que se tornou uma referência para os estudiosos de arte. A sua reputação de professor deixou marcas na Bauhaus, em 1925, e no Black College Mountain, Carolina do Norte, a partir de 1933, e finalmente na Universidade de Yale, entre 1950 e 1958.

                                                                                                                                 No CAM

domingo, 20 de maio de 2012

Helena Almeida

Estudou Pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, 1959, onde se interessou mais pela vida cultural do que pela vida académica. Em 1967 realiza a sua primeira exposição individual de pintura na galeria Buchholz, Lisboa. O desejo de fuga da tela transparece nos primeiros trabalhos de Helena Almeida, onde tenta romper com os limites da pintura e sair do suporte, transgredindo de forma literal os limites do espaço da obra de arte.
Expõe telas rasgadas à semelhança de Lucio Fontana (artista que marcou o início do seu percurso), telas com o verso voltado para a frente dando, assim, a ver o que tradicionalmente estava virado para a parede. A partir de 1975, Helena Almeida começa a explorar outras disciplinas como o desenho, a fotografia e o vídeo, encarando-os como meios para perceber a relação do corpo do autor com o espaço da obra. O corpo da artista torna-se o suporte da sua arte, passando a ser sujeito e objecto, não sob a forma de auto-retrato, o rosto aparece muitas vezes oculto, mas sim no sentido de “ habitar a pintura”, de se colocar dentro do seu trabalho, de ser a sua obra. Em 1977 na exposição Alternativa Zero (exposição marco na arte contemporânea portuguesa) apresenta uma série de fotografias com elementos anexos à imagem, criando, desta forma, a ilusão da obra sair do seu lugar e entrar no espaço do observador.
                                                        continua aqui

sábado, 19 de maio de 2012

Pintura abstrata



Kandinsky

A arte abstrata nasce praticamente com o século xx. Primeiro na pintura, depois na escultura, surgem formas que já não contêm a imagem do mundo exterior. O artista já não nomeia, exprime. Cabe ao espectador reagir e apreender a significação do que é expresso.
A primeira obra a lançar-se deliberadamente nesta via é uma aguarela de Kandinsky. A sua data, 1910, marca historicamente os primeiros passos da arte abstracta.

Mondrian

Se é certo que Kandinsky é o primeiro pintor em que a abstracção nasce de uma convicção profunda, também é verdade este fenómeno se verifica noutros autores dessa altura. Assim, anos mais tarde, em 1914, é Mondrian que, seguindo uma via completamente diferente, abandona a figuração.

Malevitch
Quase ao mesmo tempo, um terceiro pintor de grande envergadura, Malevitch, seguindo também outro caminho, chega igualmente à abstracção.

                                             Dora Vallier, A Arte Abstrata

Vamos ao CAM




.




Criado em 1983, o CAM – Centro de Arte Moderna – da Fundação Calouste Gulbenkian está vocacionado para preservar, investigar e tornar acessível ao maior número possível de pessoas a colecção à sua guarda, constituída por obras de arte dos séculos XX e XXI.
A sua programação anual inclui a organização de exposições temporárias sobre obras de artistas portugueses e internacionais e a apresentação de uma exposição permanente realizada a partir de uma selecção das obras em acervo.
A colecção do CAM reúne actualmente cerca de 9.000 peças de artistas portugueses e internacionais, destacando-se a representação sobre arte portuguesa das primeiras décadas do século XX.
Dos anos 60 até à actualidade, a colecção possui um importante conjunto de obras de artistas portugueses, muitos dos quais trabalhados ao longo de uma programação regular de exposições monográficas.
As actividades do CAM integram-se na vasta programação cultural da Fundação Calouste Gulbenkian. As actividades educativas relacionadas com as exposições são actualmente programadas no contexto do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura .




O enquadramento mental do cientista




“O nosso conhecimento e as nossas expectativas do que iremos provavelmente ver afetam o que vemos de facto. (…) O que normalmente vemos depende daquilo a que chamamos o “enquadramento mental”.    Nigel Warburton


Popper afirma o primado da teoria sobre a observação. A ciência é um processo no qual o cientista nunca começa do nada, parte sempre de informação, pressupostos e ideias. Toda a observação está impregnada de teoria no sentido em que esta condiciona e orienta o modo de ver, a seleção/valorização de uns aspetos em detrimento de outros. A observação supõe já uma interpretação, o que está de acordo com a perspectiva de que “o que vemos depende daquilo a que chamamos enquadramento mental”

Podemos considerar que o paradigma em vigor, que, segundo Khun, orienta a “ciência normal”, enquanto conjunto de conceitos fundamentais e procedimentos padronizados, aceites pela comunidade científica que orientam a prática científica numa determinada época, constitue um “enquadramento mental do cientista”.

Verdade Científica e Objetividade



A verdade científica não é a “verdade” ou descrição da realidade em si (tal como ela é). A verdade científica é uma construção racional rigorosa com base em métodos e instrumentos; é uma interpretação da realidade condicionada pela racionalidade humana, instrumentos e técnicas existentes num dado momento.
Uma das exigências dessa construção/conhecimento científico é a objectividade. A objectividade do conhecimento significa, à partida, a descrição da realidade independentemente das características do investigador. É claro, no entanto, que essa construção está sempre dependente dos instrumentos (criados pelo homem e que condicionam a captação da realidade) e da influência do investigador, por mais que se queira afastar.
A objectividade é inerente à verdade científica. Isto significa que num dado momento uma interpretação da realidade tem o consenso da comunidade dos cientistas (intersubjectividade) pelo facto de ser reconhecido o rigor metodológico que permite que qualquer investigador, repetindo as operações lógico-matemáticas experimentais, obtenha sempre os mesmos resultados.
                                                                                              

terça-feira, 8 de maio de 2012

Camus: O Absurdo e a Finitude

 

 

CAMUS: O ABSURDO E A FINITUDE


“ A Filosofia de Camus é uma Filosofia do Absurdo, e o absurdo, para ele, nasce da relação entre o homem e o mundo, entre as exigências racionais do homem e a irracionalidade do mundo”. Sartre

A vida humana pode não ter sentido, mas também ser absurda. O mundo é constituído por despropósitos onde não parece existir finalidade e valor.
Para Camus a vida é absurda, não tem sentido. A inutilidade do sofrimento e a inevitabilidade da morte confirma a sua posição.
A Peste é um romance fascinante que nos leva a reflectir sobre a finitude do homem e a morte eminente. Aqui o homem está perante uma situação limite.
Em O Estrangeiro, é tratado o absurdo da existência. O homem sente-se um estrangeiro entre os homens, um exilado do mundo para o qual não encontra um sentido. A personagem vive o absurdo, opta pelo fracasso ou pela desistência da vida.
Em O Estrangeiro Camus o absurdo centra-se no indivíduo, em A Peste o absurdo é colectivo. Nos dois casos a gratuidade da vida, da morte, dos acontecimentos e a irracionalidade do mundo.

Heidegger define o homem como um “ser-para-a-morte”; a morte não é apenas um fim inevitável, pertence à estrutura íntima do homem.
Para os existencialistas, a morte é exterioridade, é a negação do homem e, por isso absurda.

Trata-se de um romance que coloca o homem frente à situação-limite que mais o assusta: a morte, não como resultado do ciclo da existência, o que é natural, mas trágica, dolorosa, com sofrimento. E mais: gratuita, um capricho cruel que surge repentinamente, impondo um fim gradual e pavoroso. Dada sua omnipresença e força simbólica, a morte é uma personagem nesse livro da separação e da esperança.
Para Camus a vida é absurda.


Através do Mito de Sísifo, ensaio sobre o absurdo, Camus procura mostrar como o esforço humano é inútil, como a existência tem uma natureza absurda.
O mito de Sísifo é um mito grego onde Sísifo, rei de Corinto, por ter desafiado os Deuses, contando os seus segredos aos mortais, foi condenado a empurrar uma pedra enorme, sem descanso, até ao cume de uma montanha. Mas, assim que chegava ao topo, a pedra resvalava e era preciso começar de novo, eternamente. Esta imagem traduz a existência humana, onde as tarefas se iniciam num ciclo sem fim.
O Absurdo significa o sem sentido do que não está de acordo com as leis da lógica.
Jean Paul Sartre escreveu no Prefácio de “O Mito de Sísifo” “ A Filosofia de Camus é uma Filosofia do Absurdo, e o absurdo, para ele, nasce da relação entre o homem e o mundo, entre as exigências racionais do homem e a irracionalidade do mundo”.
Efectivamente, o sentimento de absurdo nasce do confronto inconsequente e doloroso entre o homem e o mundo. O homem procura a inteligibilidade do mundo e da vida mas a realidade apresenta-se irracional.
Mas é a estranheza que se revela na existência; os outros e nós mesmos revelam-se estranhos. Queremos promover valores mas a existência afirma-se nua e crua com um sofrimento inadmissível.
Mas o que fazer, face ao absurdo?
Não podemos fugir à condição humana. A resposta deve ser a revolta. A recusa em cooperar com a injustiça, com a desonestidade







                                                                                                              João MB, 11º ano

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O problema do sentido da vida

 



O sentido da vida é uma questão existencial, filosófica por excelência. Ainda que não seja uma questão central na filosofia, ela não deixa de estar na sua base, de forma mais ou menos implícita. A questão do sentido da vida não é alheia à necessidade de compreender a realidade, de construir sentidos; ela está presente nas questões éticas.
A questão do sentido da vida é existencial mas também metafísica. Ela coloca-se na consciência que o homem tem da sua existência, da inquietação perante a sua finitude, o absurdo da morte.
É um tema que nos fascina porque nos leva a problematizar a nossa existência, confronta-nos com a estranheza e com o absurdo da vida, abrindo-nos, simultaneamente, perspectivas de esperança e de construção de sentidos.
Importa formular o problema existencial: o sentido da vida e clarificar as questões relativas à condição humana, a finitude e a temporalidade.
Algumas perspectivas de interesse: o existencialismo e o absurdo; o transcendente e a perspectiva ética.



Em que consiste o problema do sentido da vida?
E em que perspectivas se pode colocar esta questão? De um ponto de vista subjectivo ou objectivo? Coloca-se esta questão no sentido daquele que vive a sua vida e se sente ou não feliz?
O problema do sentido da vida consiste em perguntar se a vida tem uma finalidade última, se tem valor e significado. A pergunta sobre o sentido liga-se à questão do valor. Qual o valor da nossa vida? Vale a pena viver? Ou será que tudo é inútil e desprovido de interesse?
Esta questão emerge da inquietação da existência humana. Da consciência da sua temporalidade e finitude. A inevitabilidade da morte é central nesta questão. Radica aqui o tema do absurdo.
O problema é a vida acabar com a morte? Se não houvesse a morte, a vida passaria a ter sentido? A existência de deus e a promessa de vida eterna resolveria a questão?

Perguntar pelo sentido da vida é interrogar sobre o valor da finalidade última da vida como um todo, independentemente das circunstâncias e interesses particulares.
No mito de Sísifo há uma finalidade, colocar a pedra no cimo da montanha. A falta de sentido não está na ausência de finalidade mas do facto de nunca atingir essa finalidade? Mas a questão não estará aqui mas no facto da finalidade não ter valor.




                                                                                        João MB, 11º ano


sexta-feira, 4 de maio de 2012

A experiência da contemplação de uma imagem


 Monet

Macke

Van Gogh
Magritte





Contempla as imagens aqui apresentadas.
Comenta uma delas (tema, sentimentos que exprimem as figuras, elementos ou aspectos da imagem que justifiquem esses sentimentos).
Aprecia esteticamente a imagem: refere-te à emoção que ela te suscita expressando-a  num juízo estético

terça-feira, 1 de maio de 2012

Experiência da contemplação de uma imagem




Pietá de Paula Rego



Pietá de Michelangelo


Pietá de El Greco


Pietá de Rubens



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sábado, 28 de abril de 2012

O problema da demarcação






Popper chama a isto o "problema da demarcação" — qual é a diferença entre a ciência e outras formas de crença? A sua resposta é que a ciência, ao contrário da superstição, pelo menos é falsificável, mesmo que não possa ser provada. As teorias científicas estão formuladas em termos precisos, e por isso conduzem a previsões definidas. As leis de Newton, por exemplo, dizem-nos exactamente onde certos planetas aparecerão em certos momentos. E isto significa que, se tais previsões fracassarem, poderemos ter a certeza de que a teoria que está por detrás delas é falsa.

A perspetiva falsificacionista



1. Indução

Uma linha de resposta bastante diferente para o problema da indução deve-se a Karl Popper. Popper olha para a prática da ciência para nos mostrar como lidar com o problema. Segundo o ponto de vista de Popper, para começar a ciência não se baseia na indução. Popper nega que os cientistas começam com observações e inferem depois uma teoria geral.

O problema da indução





Alguém pode dizer: "De facto, não podemos deduzir validamente proposições sobre o futuro de proposições sobre o passado; isso seria uma dedução e nós não a temos neste caso. Mas os indícios aqui são indutivos: a indução dá-nos probabilidades, não certezas, mas diz-nos que se as pedras sempre caíram há a probalidade, não a certeza, de que cairão amanhã." Mas isto, claro, é o que Hume põe em questão: a aceitabilidade dos argumentos indutivos. Dizer que há evidência indutiva de que a indução continuará a ser fiável é assumir o que está em questão:

Dizeis que uma proposição [sobre o futuro] é uma inferência da outra [sobre o passado]; mas tendes de admitir que a inferência não é nem intuitiva nem demonstrativa. Então de que natureza é? Dizer que é experimental é assumir o que está em questão. Todas as inferências com base na experiência supõem, como seu fundamento, que o futuro se assemelhará ao passado… É impossível, portanto, que quaisquer argumentos baseados na experiência possam provar esta semelhança do passado com o futuro, uma vez que todos estes argumentos se fundam na suposição dessa semelhança. Admitamos que o curso das coisas tem sido até agora bastante regular, por si só, sem qualquer novo argumento ou inferência, isso não prova que no futuro o continuará a ser.
                                                    Hume, “Dúvidas céticas relativas às operações do entendimento
 Tradução de José coelho in http://www.filedu.com/jhospersproblemadainducao.html


Qual a objeção de Hume à indução?

terça-feira, 24 de abril de 2012

25 de Abril por Helena Vieira da Silva





Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), pintora de origem portuguesa, nasceu em Lisboa, no seio de uma família que cedo estimulou o seu interesse pela pintura, pela leitura e pela música, filha única de Marcos Vieira da Silva e Maria da Silva Graça. Os três primeiros anos da sua vida são pontuados por viagens a França e Inglaterra, e em 1910, a doença do pai leva-os a Leysin, na Suíça. Após a morte do pai, em 1911, Vieira e a mãe regressam a Portugal onde cresce num ambiente intelectualmente rico mas frequentado quase exclusivamente por adultos. No final do Verão de 1913, depois de uma estadia de dois meses em Inglaterra marcada pela descoberta dos museus e do teatro de Shakespeare, Vieira recorda ter decidido tornar-se pintora. Depois de ter estudado desenho, pintura e escultura em Lisboa, vai para Paris em 1928, insatisfeita com o ensino ministrado na Escola de Belas Artes de Lisboa, num período politicamente instável face ao avanço do fascismo e culturalmente pouco estimulante. Em Paris deslumbra-se com a agitação da capital francesa num período rico na partilha de ideias por parte de artistas plásticos, escritores, músicos e bailarinos...

A Justiça como equidade



John Rawls
 (1921- 2004)
"Os sujeitos colocados na situação inicial escolheriam dois princípios bastante diferentes: o primeiro exige a igualdade na atribuição dos direitos e deveres básicos, enquanto o segundo afirma que as desigualdades económicas e sociais, por exemplo as que ocorrem na distribuição da riqueza e poder, são justas apenas se resultarem em vantagens compensadoras para todos e, em particular, para os mais desfavorecidos membros da sociedade. Decorre destes princípios que as instituições não podem ser justificadas pelo argumento de que as dificuldades de alguns são compensadas por um maior bem total. Pode, em certos casos, ser oportuno que alguns tenham menos para que outros possam prosperar, mas tal não é justo. Porém, não há injustiça no facto de alguns conseguirem benefícios maiores que outros, desde que a situação das pessoas menos afortunadas seja, por esse meio, melhorada. A ideia intuitiva é a seguinte: já que o bem-estar de todos depende de um sistema de cooperação sem o qual ninguém poderia ter uma vida satisfatória, a divisão dos benefícios deve ser feita de modo a provocar a cooperação voluntária de todos os que nele tomam parte, incluindo os que estão em pior situação. No entanto, tal só pode acontecer se os termos propostos forem razoáveis. Os dois princípios atrás mencionados parecem constituir uma base equitativa para um acordo, na base do qual os mais bem dotados, ou os que tiveram mais sorte na sua posição social — vantagens essas que não foram merecidas —, podem esperar obter a colaboração voluntária de outros, no caso de um sistema efectivo de cooperação ser uma condição necessária para o bem-estar de todos. Quando tentamos encontrar uma concepção de justiça que elimine os acasos da distribuição natural de qualidades e as contingências sociais como vantagens na busca de benefícios económicos e políticos, é a estes princípios que somos conduzidos. Eles são o resultado do facto de excluirmos os aspectos da realidade social que parecem arbitrários de um ponto de vista moral".
                                                                                           JOHN RAWLS, Uma Teoria da Justiça    

Como se justifica moralmente a desigualdade económica?

Condições para a sociedade Justa:

- Assegurar as liberdades básicas - princípio de igual liberdade
- As posições sociais mais vantajosas devem estar ao alcance de todos - princípio da igualdade   de oportunidades.
- As desegualdades sócio económicas são admossíveis se funcionarem a favor de todos, sobretudo dos mais desfavorecidos - princípio da diferença.

domingo, 22 de abril de 2012

A justiça como utilidade





"Numa associação industrial cooperativa, será ou não justo que o talento ou a perícia dêem direito a uma remuneração superior? Do lado de quem responde negativamente, afirma-se que quem dá o melhor que pode merece o mesmo, e não deve, à luz da justiça, ser colocado numa posição de inferioridade por coisas de que não tem culpa; que as capacidades superiores encerram em si vantagens mais que suficientes, pela admiração que suscitam, a influência pessoal que exercem, e pelas fontes de satisfação que as acompanham, sem a necessidade de adicionar a estas uma maior fatia dos bens do mundo; e que, pelo contrário, a sociedade está obrigada em justiça a compensar os menos favorecidos por esta imerecida desigualdade de benefícios, e não a agravá-la. No lado contrário defende-se que a sociedade recebe mais do trabalhador mais eficiente; que, sendo os seus serviços mais úteis, a sociedade lhe deve uma retribuição maior por eles; que uma maior fatia do resultado conjunto é na verdade obra sua, e não lhe reconhecer o direito a ela é uma espécie de roubo; que se ele receber apenas o mesmo que os outros, pode apenas exigir-se-lhe, em justiça, que produza o mesmo, e dedique uma menor percentagem de tempo e esforço, proporcionais à sua eficiência superior. Quem decidirá entre estes apelos a princípios de justiça contraditórios? A justiça tem neste caso duas faces, que é impossível harmonizar, e os dois contendores escolheram lados opostos; um deles olha para o que seria justo que o indivíduo recebesse, o outro para o que seria justo que a comunidade lhe concedesse. Cada uma destas posições é, do seu próprio ponto de vista, incontestável; e qualquer escolha entre elas, com base na justiça, terá de ser completamente arbitrária. Só a utilidade social pode decidir a prioridade".
                                                                                                                              Stuart Mill, Utilitarismo
1.        Que problema é tratado no texto?
2.        Que tese é defendida?
3.        Que argumento é apresentado para defender a tese?

sábado, 21 de abril de 2012

As teorias contratualistas de Hobbes e Locke

Hobbes
(1588-1679)


 Portanto tudo aquilo que é válido para um tempo de guerra, em que todo homem é inimigo de todo homem, o mesmo é válido também para o tempo durante o qual os homens vivem sem outra segurança senão a que lhes pode ser oferecida por sua própria força e sua própria intenção. Numa tal situação não há lugar para a indústria, pois seu fruto é incerto; consequentemente não há cultivo da terra, nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas pelo mar; não há construções confortáveis, nem instrumentos para mover e remover as coisas que precisam de grande força; não há conhecimento da face da Terra, nem cômputo do tempo, nem artes, nem letras; não há sociedade; e o que é pior do que tudo, um constante temor e perigo de morte violenta. E a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta.
(…)  A única maneira de instituir um tal poder comum, capaz de defendê-los das invasões dos estrangeiros e das injúrias uns dos outros, garantindo-lhes assim uma segurança suficiente para que, mediante seu próprio labor e graças aos frutos da terra, possam alimentar-se e viver satisfeitos, é conferir toda sua força e  poder a um homem, ou a uma assembleia de homens, que possa reduzir suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade. O que equivale a dizer: designar um homem ou uma assembleia de homens como representante de suas pessoas, considerando-se e reconhecendo-se cada um como autor de todos os actos que aquele que representa sua pessoa praticar ou levar a praticar, em tudo o que disser respeito à paz e segurança comuns; todos submetendo assim suas vontades à vontade do representante, e suas decisões à sua decisão.(…) É como se cada homem dissesse a cada homem: Cedo e transfiro meu direito de governar-me a mim mesmo a este homem, ou a uma assembleia de homens, com a condição de transferires a ele o teu direito, autorizando de maneira semelhante todas as suas acções. Feito isto, à multidão assim unida numa só pessoa se chama Estado, em latim civitas. (…)

                                                                                                    Hobbes, Leviathan



Thomas Hobbes - aspetos principais da sua teoria
1.       Ideia de que o homem é mau por natureza
2.       O Estado deve garantir a segurança e paz social

Como procede o cientista para conhecer a realidade?






“O salmão prateado nasce nas correntes frias do noroeste do Oceano Pacífico. O pequeno peixe nada até ao Pacífico Sul, onde poderá passar até cinco anos para atingir a maturidade física e sexual. Em seguida, em resposta a algum estímulo desconhecido, volta às correntes frias para desovar. Acompanhando o roteiro do peixe, descobre-se um facto curioso. Ele volta, quase sempre, precisamente ao seu local de origem. Eis aqui um facto-problema que pede explicação. Como é possível que o peixe identifique exactamente o lugar onde nasceu, depois de tantos anos e de percorrer tão longa distância?
                Uma das hipóteses sugeridas para explicar o retorno foi a de que o salmão descobre o caminho de hipotético dedutivo volta reconhecendo objectos que identificou durante a primeira viagem. Se esta hipótese estivesse correcta, então, vendando os olhos do salmão, ele não conseguiria voltar. Daí temos:
                H1: o salmão utiliza apenas os estímulos visuais para encontrar o seu caminho de volta.
                Consequência preditiva: o salmão x, com os olhos vendados, não será capaz de voltar.
                Suponha-se que o salmão x, com os olhos vendados, encontre o seu caminho de volta. O resultado dessa experiência falseia a hipótese. Por outro lado, suponha-se que o peixe com os olhos vendados não encontre o caminho de volta. Este resultado seria capaz de verificar, assegurar a verdade da hipótese do estímulo visual? Não. Apenas podemos afirmar que o resultado experimental apoiou a hipótese.(...)
                As experiências realizadas para testar a predição da hipótese acima revelaram que todos os salmões com os olhos vendados conseguiram voltar ao seu lugar de origem, o que desconfirma a hipótese.
                Nova hipótese foi apresentada para explicar o fenómeno. Desta vez pelo Dr. Hasler da Universidade de Wisconsin, EUA, que formulou a hipótese de que o salmão conseguiu voltar ao seu lugar de origem identificando o caminho pelo olfacto. Se a hipótese fosse verdadeira, bloqueado o olfacto do salmão, ele seria incapaz de identificar o caminho de volta. Daí segue-se:
                H2: o salmão identifica o caminho pelo olfacto.
                Predição: bloqueado o olfacto, o peixe não será capaz de identificar o caminho.
                Para efectuar o teste da hipótese, o Dr. Hasler realizou experiências com salmões que haviam tido o olfacto bloqueado. Os peixes não conseguiram voltar. Esse resultado confirmou a hipótese.”
                                           Leónidas,  H. Iniciação à lógica e à metodologia das ciências


1- Qual o método usado pelo investigador?
2- Qual o problema com  que o investigador se confrontou?
3- Formule a hipótese que o investigador sugeriu.
4- Que consequências preditivas se inferiram da hipótese?
5- Como submeter as consequências a verificação/experimentação, a fim de confirmar ou refutar a hipótese?
5- Quais os momentos fundamentais deste método?
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